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Afinal o todo é mesmo a soma das partes (5/5)

por magnolia, em 08.04.13

 

 

 

Na porta aberta estavam duas pessoas a olhar para dentro da sala com um ar de absoluto espanto. Bocas e olhos muito aberto, como os peixes do aquário algures daquela sala.

Uma mulher, bem vestida mas com ar cansado, maquilhagem desfeita, cabelo desalinhado, como se tivesse estado toda a noite de pé e um homem. Esse homem trazia o braço ao peito e um penso enorme no lado esquerdo da testa.

Todos se voltaram ao mesmo tempo para olhar o casal. Todos sem excepção sabiam quem eram eles, conhecessem ou não as personagens.

- Eduardo….Maria… que….que se passa? Onde estiveram? Que se passou aqui?

O inspector não deixou no entanto o caso por mãos alheias e tomou conta do caso.

- Façam favor de entrar. Creio que têm os três muito que explicar!

Não tiveram sequer o cuidado de fechar a porta.

- Desculpa Ernesto….

Eduardo baixou os olhos. Estava envergonhado por ter sido apanhado em falta pelo irmão. Ele sabia que Maria era a mulher que supostamente deveria ter ido ter com ele e não foi porque estava consigo.

- Não entendo…não entendo….- murmurava o Ernesto.

Maria estava calada, desanimada quase apática.

O inspector Geraldes, mais uma vez falou mais alto.

- Então deduzo, que seja você o irmão gémeo do Sr. Ernesto Santos. E você, a mulher por quem se apaixonaram os dois. Talvez seja melhor começar a contar a história a ver se nos entendemos.

Eduardo deixou-se cair no cadeirão de leitura, um pouco afastado dos sofás amarelos, ainda manchados de sangue e agora recortados. Maria estava encostada a um canto, ainda não tinha dito uma palavra, embora o seu olhar já se tivesse cruzado com o olhar dorido do Ernesto.

- Eu explico tudo…mas não entendo porque estão aqui. Eu não chamei  a policia….foste tu Ernesto? Imagino que chegaste e viste o sofá…

- Não Eduardo, não fui eu….quando cheguei cintando ver a casa já vazia, dei com a policia aqui.

- Meus senhores. Voltemos à história, sim?

Então Eduardo, muito devagar, começou a contar a história do principio…

“A Maria não teve culpa. De inicio ela olhava o Ernesto e começaram a gostar um do outro mas depois houve um dia em que nos cruzamos na rua e ela agiu como se nos conhecêssemos. Eu fiz de conta que sim, brincadeira que eu e o meu irmão fazíamos tantas vezes em miúdos. Saímos, bebemos um copo e acabamos na cama. Depois ela contou-me que era casada e eu disse-lhe que não era o Ernesto mas sim o Eduardo. Ficamos zangados mas depois de uns dias voltamos a ver-nos. Há algo de verdadeiro entre nós. No entanto a Maria não teve coragem de contar nada ao Ernesto. Por isso marcou com ela esta noite, sabendo ela que não iria. Mas eu queria estar com ela e aqui poderíamos estar à vontade. Comprei-lhe um bilhete de comboio ida e voltar. A ideia era ela ir embora de manhã cedito.

Mas tudo se complicou. Estivemos a beber um whiskey, fumamos uns cigarros, ouvimos música….dançamos… e alguém bateu à porta. Fui abrir. Se fosse o Rnesto teria que lhe pedir por favor que não entrasse, mas mal abri um pouco a porta um homem rebentou o cadeado e entrou à força. Era o marido da Maria…”

Todos olharam para a Maria ao mesmo tempo que continuava quieta no mesmo sitio como se fosse feita de cera.

“Bem, levei o primeiro murro sem contar, depois o segundo, depois um terceiro. Já sangrava fortemente de um corte na testa e do nariz. Depois outro que me rebentou os lábios. Caí de bruços no sofá e foi aí que ele e apanhou os braços e mos torceu tanto que um deles partiu. Eu sei que gritei de dor e a Maria gritava de medo. Não sabia o que fazer. Pedia-lhe que fosse embora mas ele insultava-a de todos os nomes porcos que sejam capazes de lembrar. Foi então que vi que trazia uma navalha. Acho que foi a primeira vez que senti um medo assim. “

Eduardo estava branco. Levantou um pouco a camisa e mostrou um penso quadrado aí com uns dez centímetros de lado.

“Ele espetou-me mesmo com a navalha…e depois foi-se embora…não voltou a dirigir o olhar para a Maria. Passaram uns momentos que achamos que tinham sido horas. O silencio continuava instalado na sala. Maria então moveu-se do canto onde estava agachada, cheia de medo e veio em meu socorro. Levamos uma toalha para o ferimento da barriga e outra para a cara. Na rua chamamos um táxi. Não me lembro de nada disto, creio que perdi a consciência algumas vezes. Depois no hospital trataram de mim e mandaram-me embora depois de eu ter recusado chamar a policia. Viemos para ca porque não tínhamos mais nenhum sitio para onde ir…não esperava encontrar aqui a policia…mas imagino agora que tenham sido os vizinhos a chamar por causa do barulho…”

- Nem a ti Ernesto. Pensei que tinhas ido trabalhar. Precisava de tempo para resolver do sofá…e da Maria…descansar…

Fez-se um silencio chato, constrangedor.

Ernesto não respondeu. Apesar de ver o irmão ferido, estava triste, desiludido e humilhado.

- Bem, meus senhores. Parece que já sabemos porque não havia corpo. Não há corpo, porque não há morto. Mesmo assim, isto vai ter que ficar tudo muito bem explicadinho na esquadra. Terão todos que me acompanhar. E é agora!

Geraldes estava siderado com o desfecho da história e a boca aberta desde o inicio do relato mostrava bem isso. O inspector Vasconcelos estava divertido com isso. Tinha pena que ele não fosse ligeiramente mais dinâmico e mesmo mais inteligente. Mas na verdade, não podem ser todos como eu, pensava ele no seu íntimo vaidoso.

Aos poucos a sala ficou vazia, silenciosa. O grupo foi todo para a esquadra. Na sala ficaram os sofás estragados, as marcas do pó para impressões digitais, o aquário com peixes de bocas e olhos muito abertos.

 

FIM

 

 

 parte 4

 

 

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