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O bar sozinho (2/5)

por Maria Alfacinha, em 21.04.13


- O mar sempre me fascinou. Há qualquer coisa de irresistível na imensidão, no cheiro, no som. Nunca me canso dele. Particularmente nesta altura do ano, a esta hora, ao fim do dia. - disse a mulher sem o olhar.- Um dia hei-de viver numa casa de praia e adormecer todas as noites embalada pelas ondas.

- Porque vieste? - repetiu o homem

A mulher voltou-se para o balcão evitando olhá-lo, procurou o barman e fez-lhe sinal:

- Um uísque. E o que este senhor quiser beber.

Levou o copo aos lábios delicadamente, pousou o copo cuidadosamente e olhou para o homem:

- Não querias que viesse?

O homem manteve o olhar sem se mexer.

- Só precisava do livro. Não pedi que o viesses entregar.

A mulher riu-se:

- Não podia vir sozinho. Os livros são capazes de muita coisa mas não têm pernas, nem sabem conduzir.

O corpo do homem traía a impaciência que sentia. Levou o copo aos lábios e sorveu o uísque de um trago, contendo-se para não partir o copo quando o voltou a colocar no balcão. Os olhos pousaram no livro ao seu lado e os dedos, agora libertos do punho que mantivera fechado, tamborilaram no balcão.

- Não havia mais ninguém que o pudesse trazer, calculo.

Ela sorriu:

- Talvez, não sei, não perguntei. Quando soube que o querias ofereci-me para o trazer. Tinha saudades – levou novamente o copo aos lábios prolongando propositadamente o silencio – do mar. Saudades do mar.

O tom trocista que ela utilizava teve o condão de o acalmar. Por momentos pensou que nada estava perdido, que conseguia controlar a situação sem perder a cabeça e poderia retomar a sua vida no ponto em que se encontrava antes de ela ter chegado. Apercebeu-se, sem surpresa, que não havia ninguém por perto e até o barman se tinha retirado deixando-os completamente sós. Virou-se no banco, esperando vê-la a olhar para si. Mas a mulher fixava as prateleiras do bar com um interesse invulgar e ignorou-o. O homem aproveitou a oportunidade para a observar melhor. Estava na mesma, mais velha é certo, mas reconhecia-lhe os traços, os gestos, a posição do rosto quando algo lhe chamava a atenção. Desviou o olhar e estendeu a mão para pegar no livro. A mão dela surgiu no ar e interrompeu-lhe o gesto, puxando o livro para si.

- Deve ser um livro importante para o teres pedido. –comentou enquanto o folheava  – Esconde os teus segredos?

- Não o leste? Vieste com ele de tão longe e nem espreitaste? Nem parece teu…

Ela continuava a brincar com as folhas:

- Não. Não senti vontade de o fazer. Não porque não estivesse curiosa – acrescentou estendendo-lhe o livro – Apenas porque achei que devias ser tu a dizer-me.

Ele pegou no livro, acariciando a capa e guardou-o no bolso do blusão.

- Tens tempo?

Ela sentou-se finalmente no banco alto onde estava encostada:

- Bastante.

 

 

 

(...)

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