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O aeroporto ou como principia a realização de um sonho.

por magnolia, em 21.02.13

imagem retirada da net

 

 

Eram oito da noite e estávamos na cama. Luz apagada, televisão apagada, os dois caladinhos a tentar dormir. Silêncio. Quer dizer, tentávamos estar caladinhos e tentávamos dormir.

- Não consigo dormir...

- Shiuuuuu…dorme…

Mais uma volta na cama, mais outra, e ainda outra. O relógio de dígitos vermelhos a debitar minutos, horas….

- Não tenho sono…

- Ah! Agora és tu?

Eram quatro da manhã quando o táxi parou em frente ao aeroporto. Nós, sem dormir e cheios de olheiras que naquele momento não importava nada. A noite, fria, mas cheia de estrelas, que diga-se de passagem não vimos, estava por cima de nós. O aeroporto estava vazio. O som dos nossos passos ecoava pelo chão brilhante de granito polido. As rodinhas das malas chiavam mas nenhum de nós as ouvia. Tínhamos os casacos vestidos mas o calor a apertar. Era fim de Fevereiro mas a ansiedade valia por várias camisolas polares.

Procuramos o balcão da Lufthansa, foi fácil, havia pouca gente pelo aeroporto Sá Carneiro aquela hora, ainda noite cerrada. Uma fila não muito grande esperava por nós. As meninas, simpáticas pediram-nos a identificação, consultaram algo no computador depois a bagagem foi pesada e desapareceu diante dos nossos olhos. Nas nossas mãos os bilhetes tão esperados. Finalmente. Finalmente os bilhetes a sério e não apenas umas reserva abstracta.

Olhamos um para o outro com uma alegria impossível de descrever.

- Deixa-me pegar eu! - pedi.

Senti os bilhetes nas minhas mãos. Eram muito lisos e frios e tinham os nossos nomes escritos neles. Sei que mais do que o sorriso aberto que se desenhou no meu rosto foi a forma como os meus olhos sorriram quando se encontraram com os deles que o fizeram sorrir também. 

Tínhamos levado dois anos a juntar aquele dinheiro. Muito tempo de poupança e sacrifício, cêntimo a cêntimo, euro a euro, até aos dois mil, numa caixinha preta destinada aos sonhos importantes. E este era-o!

Tínhamos decidido que essa viagem seria o princípio da nossa vida a dois. Uma espécie de lua-de-mel maravilhosa de uma união maravilhosa inventada por nós. Depois da viagem passaríamos a viver juntos. Para sempre.

Guardamos os bilhetes numa capa plástica especial para viagens, não poderíamos correr o risco de os perder e dirigimo-nos ao corredor das formalidades, tirar os cintos, sapatos, a máquina dos metais, a revista de pernas e braços abertos, voltar a vestir tudo, depois passamos à zona onde já não há retorno!

Passámos pelas lojas cheias de coisas bonitas, livros, revistas, jóias, prendas. Tudo “tax free”. Nada disso nos interessava. Lá fora pelas janelas enormes os aviões estacionados faziam-nos o estômago mais pequeno. Um deles era o nosso que nos esperava já, impaciente, de motores a roncar, o Grou amarelo imponente na cauda.

Pela quinta vez vimos os bilhetes. Porta 10. Ainda não era hora. De mochila às costas fomos tomar um café que bebericamos de coração acelerado. A cada minuto mais. Notava-se pelos nossos olhares brilhantes e impacientes, os peitos a subir descer mais depressa. Eu olhava o meu companheiro e via nele a mesma alegria que eu sentia por estarmos prestes a realizar o nosso sonho. E estava quase na hora!

Depois do café, passeamos de mãos dadas pelo enorme corredor, em silêncio, como se tudo fosse dito sem serem necessárias palavras. Pessoas que passavam por nós, algumas apressadas, outras devagar, os de fato e gravata, os de mochila às costas, os estrangeiros, gente como nós. Olhávamos mas na verdade não víamos ninguém. De vez em quando surgia do nada o som de uma voz simpática a anunciar algo.

Olhámos mais uma vez o relógio. Estava quase.

Lentamente, de propósito, para saborear cada passo rumo ao nosso sonho tão ansiado.

Porta 10.

A mesma fila de há pouco. Uma porta, por cima o número da porta e uma voz que anunciava o destino. Um frio percorreu-nos a barriga aos dois. Pude sentir através da maneira como ele me apertou mais intensamente a mão.

Olhamos em volta, debaixo de uma pequena chaminé os fumadores fumavam os últimos cigarros, os solitários liam as últimas linhas e os grupos conversavam entre si, rindo. Casacos coloridos para enfrentar o frio nos braços de quase todos.

Mostramos os bilhetes, a identificação, duas hospedeiras desejaram-nos boa viagem. Estava muito frio lá fora. Um frio que nos fustigou o rosto quente quando saímos para o ar da madrugada. A manhã estava quase a nascer. Eram 6:00. O cinzento principiava a substituir o negro do céu. Já só se viam algumas estrelas, poucas.

Corremos sem querer para as escadas do avião. Já sabíamos de cor os nossos lugares. Rimos alto sem vergonha que nos ouvissem. Subimos as escadas e nem por um momento olhamos para trás. Estávamos a correr para o nosso sonho!

Depois de sentados, mochilas arrumadas e cintos verificados demos as mãos. Apertámos a mãos com força. Demos um beijo.

Então o comandante falou através do intercomunicador enquanto as hospedeiras, todas elas bonitas, nos verificavam os cintos:

- Bom dia minhas senhores, meus senhores! A Lufthansa e toda tripulação desejam a todos os nossos passageiros uma agradável viagem! Lembramos que faremos escala em Frankfurt de algumas horas, mas esperamos que possamos todos jantar já em Minsk! Have a nice flight!


 

 

 

Tema da semana: "Aeroporto"

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servido às 11:46


3 comentários

De Ocupadíssima a 21.02.2013 às 13:45

Gostei de ler, a forma expressada das emoções é bem realista.

De magnolia a 21.02.2013 às 13:47

Muito obrigada:)
Na verdade é mesmo isso que pretendo!

Um beijinho:)

De Margarida a 21.02.2013 às 15:17

Ahhh, que saudades de andar de avião!

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