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Um dia hei-de morar numa estante - parte 4/5

por Maria Alfacinha, em 24.02.13

O papel estava bem preso e Íris trepou mais uma prateleira para tentar libertá-lo. Com cuidado segurou a ponta dobrada e lentamente, para não a rasgar, puxou-a. Era uma folha de caderno, coberta com uma caligrafia cuidada, claramente infantil.
- Não acredito – murmurou Íris segurando a folha de papel com uma mão enquanto a outra agarrava com força o topo da estante.
Ricardo entrava na sala e gritou ao vê-la empoleirada na estante.
- Dra. Santana! Por favor! Vai cair!
- Não caio nada, Ricardo. A madeira é boa e aguenta comigo – respondeu ela. E acrescentou estendendo-lhe a mão:

- Mas dava-me jeito uma ajudinha da sua parte.
Ricardo correu para ela e ajudou-a a descer. Íris não tirava os olhos da folha que tinha na mão.
- Sarah McDougal – murmurava Íris – Como é que é possível ter-me esquecido dela?

- Sara quem? – perguntou Ricardo
Íris voltou-se para ele de olhos brilhantes:
- Sarah McDougal, Ricardo. A minha heroína de infância.
- A sua heroína?
- Sim Ricardo. A minha heroína de infância. Como é possivel ter-me esquecido dela? – repetiu Íris pousando a folha no chão. – Não há por aí um banco ou um escadote?
- Não vi nada – respondeu Ricardo – Mas o que é que se passa?
- Já lhe digo Ricardo. Pode encostar-se aqui à estante? Preciso de subir novamente.
- Vai fazer cair a estante Dra. Santana. Não faça isso – pediu Ricardo mas Íris já tinha trepado as primeiras duas primeiras prateleiras.
- Não cai nada Ricardo. A estante está presa à parede. Esquece-se que eu a conheço como a palma das minhas mãos. – respondeu Íris enquanto puxava as prateleiras - Eu não lhe disse que queria viver aqui quando era criança? Conheço todas prateleiras, todos os cantos, todos…
Uma das prateleiras moveu-se interrompendo Íris. Com cuidado Íris puxou-a um pouco mais e enfiou a mão procurando algo na parte de trás. Ouviu-se um clique e Íris retirou um pedaço de madeira revelando um pequeno caderno.
- Todos os segredos, Ricardo. – continuou Íris exibindo o caderno – Todos os segredos. Apoiada em Ricardo saltou para o chão sem largar o caderno.
- Sabe o que é isto Ricardo? A história de Sarah McDougal, a herdeira do clã McDougal. E sabe quem a escreveu? – Continuou rindo-se – Eu. Levei meses a escrevê-la.
Despreocupadamente esfregou o caderno na saia para lhe retirar o pó e folheou-o devagar até encontrar o que procurava. Apanhou a folha que tinha deixado no chão e encaixou-a no caderno.
- Mas como é que sabia onde é que estava?
- Fui eu que o escondi ali.
- Escondeu? Porquê?
Íris riu-se.
- Para ninguém o encontrar, ora! E por pouco nem eu o encontrava.
O rosto de Ricardo denunciou um pequeno amuo fazendo jus à sua personalidade exagerada.
- Não fique assim Ricardo. Eu conto-lhe tudo. Dê-me apenas um minuto para me recompor. Tem que compreender que para mim também foi uma surpresa.
E encostando-se à estante continuou:
- Já lhe disse que em criança era apaixonada pelos livros que encontrava nesta estante. Assim que me senti à vontade com as palavras comecei a escrever histórias para mim mesma. A maior parte delas deitei-as fora por achar que não tinham nada a ver com aquelas que eu lia nos livros. Até aquela noite em que li o livro sobre os Castelos da Escócia. Não me lembro dos pormenores mas pouco depois criei esta personagem, a Sarah McDougal, e comecei a escrever a sua história. E aqui está ela – rematou exibindo o caderno.
- Mas como é que o caderno estava ali?
- Era ali que eu o escondia todos os dias depois de escrever. O meu pai tinha criado aquele fundo falso para quando eu vivesse na estante. Dizia que ali podia esconder os meus pequenos tesouros. E eu assim fazia: vinha da escola, ia buscar o caderno, escrevia umas páginas e voltava a escondê-lo. Devo ter andado meses a escrevê-lo.
- E depois esqueceu-se?
Íris concordou com um pequeno sorriso triste.
- Parece que sim. Cresci, mudei de escola, as tarefas e as responsabilidades aumentaram e eu deixei de ter tanto tempo livre. Primeiro deixei de escrever e depois acabei por me esquecer que o caderno estava ali. Quando partimos para Londres, com a excitação da mudança, nunca mais me lembrei de algo que, se me perguntassem, já nem saberia dizer se era uma memória ou apenas uma fantasia.
Durante alguns momentos Íris ficou em silêncio acariciando o caderno. Ricardo interrompeu-a:
- E agora, Dra. Santana?
Iris sorriu.
- Agora Ricardo, vamos falar com a agência e negociar a compra deste apartamento. Preciso de uma casa em Lisboa e é esta que eu quero. Depois – continuou sacudindo a roupa e guardando o caderno dentro da mala – tiramos o resto do dia. Vá ao cinema, vá passear, vá aproveitar a folga. Eu tenho um livro para ler – e lançando um último olhar à estante acrescentou: Quem sabe se não tenho aqui o início de uma nova aventura?

 

(...) continua

 

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