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Afinal o todo é mesmo a soma das partes (1/5)

por Marta Leal, em 10.03.13

 

Ajeita o colarinho da camisa impecavelmente engomada. Passa as mãos pelos botões de punho de forma quase que inconsciente e, depois de se olhar de relance pelo espelho retrovisor, resolve-se a sair. Caminha enquanto compõe o fato azul-escuro recentemente adquirido no Mundo dos Fatos. Verifica a impecabilidade da graxa nos seus sapatos ao mesmo tempo que vê as horas no rolex de que tanto se orgulha.

Os seus passos são serenos, o mesmo não se poderá dizer em relação ao seu pensamento. Observa os números das portas da Avenida da República ao mesmo tempo que observa a sua figura através dos vidros das montras. Gosta do que vê e lembra-se da necessidade de manter o plano de exercício físico a que se tem obrigado. Sorri mais para ele do que para os outros. Pára em frente ao 102 e confirma o número da porta no seu Ipad Mini recentemente adquirido na Apple. Faz-se apresentar e sobe as escadas ao som de passos firmes. Os seus passos firmes. Ouve a azáfama do andar superior e sente a excitação do que se aproxima. Sente-se sempre empolgado quando lhe ligam para uma situação destas.

- Muito bom dia senhor inspector – cumprimentou-o o agente que se encontrava á porta.

- Bom dia Geraldes, pode-me informar onde está o corpo?

- O problema é esse senhor inspector não encontramos o corpo – respondeu Geraldes coçando a cabeça num misto de curiosidade e vergonha.

- Então homem? Sem corpo não há crime – disse o inspector Vasconcelos ao mesmo tempo que avançava a passos largos pelo velho 3.º andar, do número 102 da Avenida da República, seguido pelo agente Geraldes.

- Consegue-me explicar uma coisa?

- Se for sobre o corpo não sei de nada senhor inspector – respondeu o agente agora tomado de um nervoso miudinho visível a olho nu.

- Ó homem acalme-se, parece que viu um morto que pelos vistos não viu. O que eu gostaria que me explicasse é esta mania das pessoas de recuperarem casas velhas. O que será que as pessoas têm contra casas novas?

Geraldes ficou boquiaberto a olhar o inspector a dirigir-se para sala onde já estavam os restantes investigadores. Tinha momentos que o admirava e tinha momentos que o temia. A única coisa de que tinha a certeza era o facto de raramente o entender. Conseguiu finalmente a sua atenção enquanto lhe explicava que a única coisa que sabiam era a existência de um pedido de socorro na noite anterior proveniente daquela morada, as marcas de sangue vermelho no sofá amarelo da sala de estar, e a referência de um vizinho a vozes alteradas ao início da noite.

- hummm, perfeito Geraldes, mais que perfeito – murmurou o inspector



(….)

parte 2

 

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