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Origens

por Natacha, em 13.03.13


(fotografia particular)


Acabo de chegar.

Trago ainda marcados na pele os vincos que o Sol desenhou. Trago nos olhos uma imensidão de paisagens, trago o fogo dos pores-do-sol, o cinzento do cacimbo e na alma trago o batuque na sanzala, o som dos kissanges, o cheiro da terra molhada, a trovoada que nunca antes tinha vivido com esta intensidade. Na retina do meu olhar guardo a imagem dos imponentes Imbondeiros e das Mulembas, guardo a perplexidade do meu sentir a cada passo, a cada descoberta. Fui criança alegre de andar com o pé na terra e sentir a energia subir-me pelo corpo, obrigando-me a rodopiar de braços abertos para a vida, como quem quer apenas abraçar o mundo. Sorrisos rasgaram-me a face e incêndios lavraram nos meus olhos, bem como cheias, os inundaram.

Venho mais rica. Trago na lembrança os sorrisos das crianças que nada têm, a não ser uma alma grande de criança e uma vontade obstinada em sobreviver. Trago na mala, muito mais que a simples bagagem, trago outras vidas, pedaços de vida que o tempo deixou perdidos por aí. Trago também a correr-me nas veias um sangue mais quente, um espírito mais livre, um sentimento único de quem pertence finalmente a algum lugar. Ahh e um travo na língua a mucua e moamba de galinha...

Os contrastes não me deixam indiferente, mas esta é a minha viagem, que não tendo um roteiro definido, tem apenas uma nota como que um lembrete que me repete constantemente para relativizar e permitir-me sentir essencialmente a natureza. Procurar as essências, todos aqueles lugares incorruptos ainda, inviolados, e não deixar que a mão do homem, quase sempre destruidora, camufle tudo o que está ou é a origem.

Acabo de chegar da terra onde nasci.

Trago no peito um bater mais forte do coração, trago os cheiros e as imagens que para sempre ficarão marcadas em mim, como tatuagens. Trago uma vontade imensa de descobrir mais, de saber mais… de voltar lá.

Acabo de chegar… de uma viagem que ainda não fiz. E sinto a saudade…

[Angola]

tema da semana: a viagem que ainda não fiz

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servido às 10:10


7 comentários

De Anónimo a 14.03.2013 às 11:55

São grandes, sim, os sentimentos..., a alma e a escrita de quem com as suas palavras me faz sorrir de lágrimas nos olhos.

Memórias do que nunca vivi, viagens que nunca fiz. Contradições que pouca gente entende.

Parabéns! Virei adepto de chá. Chás, de aromas e sabores que me transportam, que me levam onde a terra molhada cheira ainda mais, onde a mucua, o fruto dessas árvores imponentes que nunca vi diante de mim, tem ainda mais sabor. África, que faz brilhar na minha memória, todos os dias, o seu intenso e madrugador nascer-do-sol.

De Natacha a 14.03.2013 às 21:10

Obrigada, pelas tuas palavras, e por partilhares comigo as tuas lágrimas :)

De facto, muito pouca gente entende, acho até que nós próprios só entenderemos no dia em que pisarmos a terra vermelha e respirarmos o mesmo ar que nos viu nascer.

Espero que continues sempre degustando os chás que por aqui se servem, obrigada também pela presença ;)

De magnolia a 15.03.2013 às 14:02

mas afinal o que é mucua? :)

De Natacha a 15.03.2013 às 14:57

Cláudia

A mucua é o fruto do Imbondeiro com um sabor ligeiramente... metálico, salvo melhor opinião

De magnolia a 15.03.2013 às 17:53

tenho que googlar....não sei o que é esse fruto...:s

De Ametista a 16.03.2013 às 22:22

Eu gostaria imenso de entender, de saber o calor desse chão. Sabes? Percebo, acima de tudo, que ler-te eleva a alma e torna-se num momento grandioso..
Um beijinho enorme

De Natacha a 17.03.2013 às 23:06

Querida Leonor, é sempre um prazer imenso partilhar contigo o meu chá. Também eu tenho uma imensa sede em entender e conhecer o calor do chão da minha terra... quem sabe um dia ;)

Obrigada pelas tuas, sempre doces, palavras.

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