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A madrinha, a Páscoa, os ovos, a saudade…

por magnolia, em 28.03.13



 

Abro o frigorífico e retiro os ovos para cozer. Três. Vou fazer algo para jantar mas ainda não sei bem o quê. Não tenho grande vontade de nada. Nem de fazer e na verdade nem de comer. É sempre assim quando estou só. Ponho água na panela e ligo o lume. Deixo que ferva e meto os ovos dentro da água.

 

A televisão, constantemente ligada quando estou só para criar a ilusão de que não estou, anuncia o início do jornal da noite. Diz que é dia 28 de Março... Penso que é quase Páscoa e olho os ovos que, na panela com a água fervilhante, dançam entre si. Fico ali a olhá-los mas o meu pensamento voa. Para longe. Para trás.

 

Em tempos, demasiado, nesta altura do ano, já a minha avó, também minha madrinha, poupava os ovos para a Páscoa. Nessa semana ninguém comia ovos.

 

- São para a tingir para o dia de Páscoa! - Dizia ela.

 

Eu e as minhas irmãs e primos, que por lá passávamos os dias das férias da escola, ansiávamos por esse dia. Não que não comêssemos ovos no resto do ano, que comíamos e muitos, tendo a minha avó a capoeira sempre cheia, mas naquele dia… Naquele dia os ovos sabiam diferente, cheiravam diferente. Eram diferentes!

 

A minha avó cozia os ovos no Sábado de Páscoa. Numa panela punha a ferver água com as cascas de fora das cebolas, as mais escuras, que ia buscar à arrecadação, noutra panela folhas de hera, as mais verdes, que cresciam sem lei nem ordem no muro do quintal.

 

Depois de cozidos, a minha avó colocava-os num prato, os castanhos, que eram os das cebolas, e no outro os verdes, que eram os das heras. Fumegavam durante algum tempo e queríamos comer um ou dois, mas não lhes mexíamos até ao dia seguinte. A tentação era grande, mas não lhes mexíamos. Ficávamos apenas a olhar e lamber a boca na expectativa.

 

Depois, no dia de Páscoa, em casa também tínhamos compasso e ovos e pão-de-ló. Eu e as minhas irmãs estreávamos uma roupa nova, costurada pela minha mãe na semana anterior durantes longos serões, depois esperávamos o compasso em casa dos meus pais, púnhamos o tapete de pétalas de rosa e outras flores do jardim e beijávamos a cruz. Lanchávamos a correr e depois corríamos até casa da minha avó que também era minha madrinha…. Já disse isto?

 

A saudade que tenho desses tempos de criança não a posso aqui descrever por ser demasiada e tão intensa. Que palavras poderão descrever a saudade da minha avó, da vinda do compasso, de fazer o tapete com flores previamente colhidas e cortadas aos bocadinhos, heras e outros verdes do quintal? Como posso aqui dizer a saudade do som do sininho que um garoto à frente do compasso badalava e nos avisava que era hora de nos perfilar a todos na sala, à espera do padre que nos atiraria água benta para as caras e cabelos, que é como quem diz que nos benzeria, e a cruz que teríamos que beijar depois de tanta gente a beijar? Como poderei eu explicar a repulsa da repulsa que sentia em beijar a cruz que todos beijavam, por muito que visse o homem que a carregava fazer de conta que a limpava com um paninho branco? Pois, como se bastasse…

 

E como dizer aqui em palavras de maneira a que percebam o que sentia depois do “aleluia, aleluia, Sr. António e companhia”, sobre o lanche que a minha avó colocava na mesa posta a preceito com toalha branca de renda feita por ela e copos de pé alto para o vinho do Porto? E era então aí que tínhamos permissão para os ovos. Ai os ovos. Uma barrigada de ovos ainda pela manhã, seguido de pão-de-ló, doces de romaria, pão doce e outras iguarias pascais. Difícil de dizer o quanto sabiam bem essas coisas de gente pobre mas tão deliciosas e especiais para nós, crianças, primos de muitas idades, alguns de perto, outros de longe e que nos víamos tão pouco. Como explicar que tudo aquilo era uma festa? Uma alegria?

 

Como dizer o que me ia no peito, melhor, o que vai ainda no peito ao lembrar que a minha madrinha (e o meu avó meu padrinho) me trazia uma nota poupada a tanto custo dentro de um envelope branco, com o meu nome escrito com dificuldade, em letra de quem só fez a segunda classe e um saco de amêndoas?

 

Foi assim a tradição, sempre até ao último dia. A minha madrinha nunca a deixou morrer. Envelope e amêndoas, às vezes também pão-de-ló. Sempre amor, sempre muito. As saudades são tantas da minha madrinha…

 

Saudades.

 

Dela. Da minha avó madrinha querida. Dos ovos e do pão-de ló. Do compasso. De apanhar heras e flores velhas para o tapete. Do cheiro da Primavera no ar. Da roupa nova feita pela minha mãe…

 

Saudades.

 

Saudades dos tempos em que havia sempre alegria e também sol em Abril.

 

Saudades de comer ovos verdes e de ser tudo tão especial.

 

Saudades de um passado que não volta, mas que não está perdido. Nunca estará perdido enquanto eu retiver estas histórias, cheiros, paladares e todas as outras coisas que os meus sentidos foram sendo capazes de arrecadar na memória.

 

Olho os ovos novamente na panela. Amanhã irei comprar cebolas, muitas cebolas, e quem sabe não passarei também no jardim da minha avó, que já partiu, e que já nem sei a quem pertence e não colherei algumas folhas de hera…? Faltam poucos dias… Ainda haverá tempo de matar um bocadinho esta saudade… Quem sabe partilhá-la com alguém? Quem sabe poderei abraçar a tradição, partilhá-la com os meus e um dia alguém escrever num blog qualquer sobre os meus ovos castanhos e verdes cozidos para o dia de Páscoa?

 

   

 

 tema da semana: a saudade


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