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Álbum de Familia

por magnolia, em 04.04.13

 

Sorrateiramente subi as escadas que levam ao sótão da casa com mais de cem anos onde habitam os meus pais. Já era dos meus avós e antes deles dos meus bisavós. Aproveitei a distração da família para fugir para lugar que mais gosto: o sótão.

Por lá, empoeirados, muitos objetos me fazem sonhar. A cadeira de baloiço envelhecida, as bonecas velhas, semi-partidas. As pesadas malas onde se podem fazer desenhos no pó. Lá dentro das malas roupas de outros tempos que me fazem voar, para longe, para trás. Vestidos de folhos, compridos. Outros, mais recentes, cintados, parecendo quando inacreditável que alguém tivesse cabido ali dentro. Em cabides, chapéus, de coco, cartolas, guarda-chuvas.


Adoro o sótão. Adoro tudo o que está lá. Mas de entre todos os objetos há um de que gosto mais, onde me perco por horas, até ouvir chamar o meu nome com persistência. Esse objeto é um velho álbum de família. Velho, muito velho, encadernado a negro, muito grande e cheio de fotos antigas, a preto e branco, já desbotadas pelo tempo. Há muitos rostos que não sei de quem são, mas por vezes consigo perceber um nariz parecido com o meu, uma boca parecida com a da minha mãe, as orelhas do meu irmão. Os cabelos as roupas, as poses, tudo absolutamente maravilhoso. Uma história da qual não fiz parte, mas à qual dou continuidade. Estão ali avós, tios, primos, amigos da família. Está ali uma história inteira para contar. Por vezes ganho coragem para falar dele á família, faço perguntas. Ninguém me dá muita atenção. Contam algumas histórias, mas nunca conseguiram satisfazer a minha enorme curiosidade de saber o que está por trás de cada foto, de cada pose, de cada sorriso, de cada cara menos alegre.


Depois que o dia termina, volto à realidade, à minha casa nova e sem sótão. Abro o computador onde guardo as fotos aos milhares que vou tirando com a camara digital. Vou abrindo os álbuns, passando as fotos, coloridas ou a preto e branco, imensas. Adoro-as mas penso que nunca chegarão ao sótão de ninguém, muito menos da velha casa de família de onde vim. Um dia os meus netos, se os tiver, não poderão tocar naquelas fotos com as mãos, não poderão fazer suposições e inventar histórias à volta delas. Nunca estarão guardadas numa velha mala de madeira como se fosse uma arca guardiã de um tesouro. Um velho álbum de fotos a preto e branco, belas e enigmáticas será sempre um tesouro onde quer que esteja guardado.


Sorrio. Porque não fazer um álbum de família? Mais actual, novo que um da ficará velho. Poderei guardá-lo nas gavetas entre a roupa que já não uso. Um dia, quem sabe? Depois de eu partir, alguém o há-de encontrar e talvez seja antigo nessa altura. Antigo o suficiente para ser também ele um tesouro. Sim, farei isso. Um álbum de família. Pensando bem, vou fazê-lo eu mesma. Papel, cartão, folhas brancas, cantos para as fotos…Sim, é isso mesmo que farei…


E sorrio de novo sonhando, voando, desta vez para a frente, para o futuro, imaginando mãos que pegarão naquele álbum e olhos que verão nele uma possibilidade de sonhar.


tema da semana: álbum de familia

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