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Conversas de café...

por magnolia, em 18.04.13

 

A noite ia já adiantada mas o café continuava cheio. Aliás, estava sempre. Pela noite dentro ficavam a beber, rir, conversar, desabafar e mesmo chorar dezenas de pessoas que não queriam voltar às suas casas e vidas mais ou menos solitárias e tristes…

O café, enfiado num beco de uma pequena cidade piscatória, velho e fora de moda, parecia estar a fechar portas a qualquer momento. O néon da publicidade já só funciona em parte. O vidro estava estalado e sujo. Mesmo assim, depois de abrir a porta, quem lá entrava sentia-se em casa. Era estranho porque quem passava pela porta não se sentia convidado a entrar por causa do aspeto decadente. Quem lá ia, ia há muitos anos e quem não ia há muitos anos ia pela mão de alguém.

O dono era um homem dos seus sessenta anos com a cara bexiguenta e feia de quem passou muitas noites em claro, bebeu copos a mais e sofreu com a vida. Quando eu o vi pela primeira vez senti um certo receio como se ele pudesse pôr-me de castigo se não me portasse bem. Sentei-me ao balcão com um amigo que já fazia parte da malta de todos os dias. Olhou-me sem sorrir, depois deu-me de beber sem que eu tivesse pedido coisa alguma. Era whiskey. Duas pedras de gelo. Bebi-o quase de uma vez. A vida também não me sorria a mim.

- Outro?

- Ou outros.- Disse eu.

O homem serviu-me ainda sem sorrir.

Bebi novamente depressa aquela bebida forte que me queimava a garganta. Eu gostava de bebidas fortes. O terceiro já não pedi. Fui servida. O meu amigo tinha ido cumprimentar outros que estavam a jogar às cartas numa das mesas do fundo a coberto de uma semiobscuridade conferida pelo lugar estratégico atras de umas colunas.

- Então? A vida corre?

- Nem por isso – disse eu macambuzia – Não corre nem deixa de correr. É uma porcaria.

- Já vi que vai precisar de mais um copito ou outro… e de amigos. Cá somos todos amigos. Mesmo os que não voltam. Se precisar de falar, pode falar. Se precisar de não falar, estamos cá para o silêncio.

Olhei para aquele homem gordo e bexiguento que limpava o balcão com um pano velho. Olhei para um homem que também era velho e já não tive medo. Olhei-o mesmo nos olhos e dentro deles li uma bondade infinita de quem já passou por muitas coisas e não será nunca surpreendido. Ao invés disso, saberá sempre ter uma palavra amiga, um gesto generoso para quem precisa.

- Obrigada, senhor…

- Chame-me Pianista, todos me conhecem assim e eu já não me conheço de outra forma.

Estendi a minha mão bem arranjada e ele estendeu a dele, sapuda e feia. Quando a apertei senti-a firme, própria de alguém de confiança.

Sorriu pela primeira vez e vi-lhe as falhas nos dentes, e nos restantes o amarelo de muitos cigarros fumados pela vida fora.

Pianista. Um nome estranho para um homem estranho. Gostei imediatamente do nome mesmo sem saber a historia que estaria por detrás dele. E tinha, inevitavelmente, de ter uma grande história por detrás daquele nome.

- A vida às vezes consegue ser uma trampa menina, mas depois de muitos anos neste mundo uma coisa sei. Vive-se um dia de cada vez, à noite bebe-se um copo e de manhã recomeça tudo outra vez. Não adianta fazer planos, nem adianta sofrer demais com o passado e muito menos com o futuro.

- Pensei que só servia cá bebidas…afinal também dá conselhos…

O homem riu-se com gosto do meu espanto.

- Pois achou que por servir bebidas e ser um velho gordo não saberia dizer nada de jeito?

- Eu não disse isso….

- Eu sei que não disse, eu sei…

- Fico grata.

- Não fique. Hoje o conselho e as bebidas são de graça. Amanhã volte cá e já terá que pagar tudo.

Eu sorri novamente retribuindo o sorriso sincero do velho gordo.

Olhei em volta e as paredes enegrecidas, as mesas velhas, o chão com beatas, a televisão ligada que ninguém estava a ver. Por trás do balcão prateleiras com garrafas, taças de participação em torneios de futebol, e fotos de uma mulher. Muitas. Fotos antigas, algumas ainda a preto e branco, de uma mulher de cabelos compridos.

O homem viu o meu olhar e seguiu-o.

- Era a minha mulher. Morreu jovem. Demasiado…

- Lamento...

Pude ver um lampejo de dor nos seus olhos. Estranho, se tinha morrido jovem… Talvez não tivesse voltado a casar… Mais uma história para adivinhar.

- Um dia conto-lhe a minha história, menina. Se cá voltar.

- Um dia conto-lhe a minha história, Pianista. Quando cá voltar.

Quando o meu amigo voltou eu já não estava no bar. Sai para a rua escura e sem medo pus-me a caminhar pelas ruelas desertas ainda com o cheiro a peixe característicos das ruas onde se vende o peixe em carrinhos de mão e bacias de plástico. Respirei o ar da noite e pensei que me sentia bem ali. Talvez ficasse uns tempos. Talvez valesse a pena experimentar. Agora já tinha dois amigos na cidade. Era um bom começo. Porque não?


 

tema semanal: conversas de café


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