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mais um pouco

por Closet, em 29.04.13

 

 

A manhã acordou gelada por cima dos seus corpos esgotados, à medida que a luz rompia os olhos embargados pela despedida.

Ele ainda dorme sereno, enquanto ela permanece em silêncio a observa-lo. Percorre-lhe lentamente o braço macio até à mão. Entrelaça os dedos nos seus e aconchega-se a ele, mais um pouco. Respira o perfume madeirado rente ao seu pescoço e questiona se ele sente o calor do seu peito nas suas costas despidas. Fecha os olhos novamente, por mais uns segundos, e, no escuro, deixa-se invadir pelo sorriso meigo de voz aveludada que lhe sussurra «amor» baixinho. O corpo que balanceia num ritmo desengonçado, e os braços compridos que a seguram pela cintura enquanto ela fala sem parar. Conversam sobre tudo e sobre nada, entre a realidade e a fantasia, partilham os sonhos, os medos, as gargalhadas e as dúvidas. Era tão fácil ama-lo loucamente e tão difícil esquecê-lo por um segundo. Acorda sobressaltada e abraço-o sofregamente, mais um pouco. Como para ter a certeza que ainda o tinha consigo.

 

Em toda a sua minha vida precisou ama-lo. Desesperadamente. Como se não existisse mais ninguém, nem mais nada. Ama-lo violentamente, com o corpo inteiro, com a boca, com as mãos, com o olhar, com a imaginação. Vivê-lo para lá da solidão das horas vazias, da penumbra dos dias inúteis que passam rápido demais. Na busca incessante do espaço e do tempo perfeito, que os entrega um ao outro por momento escassos. Por mais uma noite finita. Para sempre? – Pergunta-lhe com a voz abafada no seu peito, fingindo esperar resposta. Ele não responde, as palavras inventadas estavam gastas, ela também as sabia de cor. 

 

A noite passara por eles também apressada. Dissipada no sabor doce que lhes resta ainda na boca, no calor que emana a mistura da sua pele. A noite passara, certamente, sem qualquer um deles notar. Levou com ela a cumplicidade de quem se pertence, numa espera antiga, adiada toda uma vida. A manhã acordou-os, cansada, de tanto esperar.

Mais um pouco - pede-lhe bruscamente, impedindo-o de levantar. Os olhos despedem-se em silêncio, demoradamente. Devia ser noite sempre, neste olhar.

 

tema da semana: cumplicidades  

 

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