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Um dia hei-de morar numa estante - parte 2/5

por Marta Leal, em 12.02.13
(imagem retirada da net)

 

- Ali? – perguntou  a mãe

- Sim ali … quando for grande quero morar na minha estante com os meus amigos

- E em qual das casas?

- Em todas. Quero ser livre como o Peter Pan e a Sininho e voar de livro em livro a visitar todos os meus amigos.

- E deixas que eu te visite?

- Claro mamã, tomas uma poção mágica para poderes encolher e podes até viver comigo. Mas só quando eu for grande. Sabes, as crianças não podem morar sozinhas.

As palavras ecoavam na sua cabeça enquanto vagueava pela casa vazia. Pensamentos tão bons que a faziam sorrir e sentir-se novamente amada. Sentia os cheiros do que lhe fora tão familiar. Ouvia a voz do pai e via o sorriso da mãe. Sentia a brisa que a presença da avó sempre provocara por ali. Pouco restava de um tempo onde não havia tempo. Pouco restava de um tempo onde não haviam impedimentos.

Passava os dedos pela estante, aquela onde um dia tinha querido morar e perguntava-se para onde tinham ido os seus sonhos. Para onde tinha ido o seu amor ás letras e aos livros. Para onde tinham ido o seu acreditar e o seu sentir. Passara rápido, passara tudo muito rápido. Num momento sonhava com letras e rebolava com a mãe no chão do quarto, e noutro momento era responsável pelo maior escritório de advogados de Londres. Passara das letras para as leis apenas porque sim. Por muito que se perguntasse não se lembrava sequer do momento em que decidira abraçar a lei. Essa lei que em nome da liberdade a deixara privada de ser quem era. Do desejo de morar numa estante passara á certeza de morar numa vitrina. As suas roupas ditavam a moda, as suas atitudes ditavam os valores e os costumes e as suas decisões eram analisadas ao pormenor. Saudades, muitas saudades do tempo em que o sonho era morar numa estante.

- Dra. Santana desculpe, desculpe, desculpe!!!! Acabei de ligar para a agência a passar-lhes um atestado de incompetência. Onde já se viu? Onde estavam com a cabeça? Pensarem sequer que estaria interessada nessa espelunca. Uma senhora com a sua importância interessada nesta casa. Que me chovam canivetes em cima se isso alguma vez é possível.

Íris olhava-o divertida. Ricardo era seu assistente há uns bons anos. Primava pela competência e pelo exagero variáveis que sabia combinar na perfeição.

- Cuidado com o que deseja, meu querido. Muito cuidado com o que deseja.

 

(...)

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