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“Fui ali viver um bocadinho e volto já.”

por magnolia, em 28.02.13

 

 

 imagem retirada da net

 

 

Houve um tempo em que o tempo era medido pelo nascer e pelo pôr-do-sol, pelas idas à escola, pela campainha a tocar para o recreio, pela fome que me levava durante a tarde à cozinha da avó e ao doce de tomate feito por ela. Houve um tempo em que as tardes eram grandes e passavam devagar, e o tempo, deitada de costas numa manta de trapos, a ler e a desviar os olhos da leitura para o céu e a perder-me na imaginação a ver as nuvens serem cavalos e cavaleiros, navios e tartarugas gigantes, não contava. E as noites também eram grandes e davam tempo para sonhar acordada, dormir e acordar sem sono e ter vontade de levantar cedo, mesmo quando às vezes as manhãs acordavam muito frias, mesmo assim tinha uma vontade renovada de ir para a escola. Mesmo que o frio entrasse pelas camisolas de malha feitas pela avó e me gelasse os ossos, mesmo assim não importava porque havia tempo para ir pela rua aos saltinhos a estalar as placas de gelo que entretanto se formavam nas poças de água da chuva da véspera. E depois, sentada numa pequena cadeira que me deixava justa à carteira por eu ser alta, o tempo passava na medida justa que devia passar. Nem demais nem de menos. Aprendia a lição e estava feliz por isso. Não desejava estar em mais lugar nenhum.

Houve um tempo em que jogava à macaca na rua com os vizinhos de muitas idades e não tinha relógio e nem me passava pela cabeça ter. Também jogávamos ao fiquinha e ao 1,2,3, estátua e nunca apetecia ir para casa mesmo que o sol já se escondesse atrás do monte e apetecesse um casaco. O tempo era medido pela voz da avó a chamar para dentro de casa. Era hora do lanche, de fazer os deveres da escola, de esperar pela minha mãe.

Houve também um tempo, um pouco mais tarde, em que a praia era até entrar no lusco-fusco e pouco importava que os raios de sol já não aquecessem, importava apenas ficar a ver o sol cair na linha do horizonte e a sentir o cheiro da maresia ficar mais intenso e a não apetecer nada ir embora porque a conversa estava tão boa. O que apetecia mesmo era ficar por ali a sonhar acordada em ser adulta e ter tempo para estar na praia até ser noite sem medo do ralhete do pai. Sonhar em ser dona do tempo não sabendo que um dia…tudo seria ao contrário.

Foi então por aí, mais coisa menos coisa e nem sei bem explicar como, que o tempo passou a ser tempo e o relógio, o real tirano da minha vida. Deixei de ter tempo e passei a contar o tempo. Passei a precisar de tempo e quando dei conta já não havia tempo para nada, embora tivesse que ter tempo para tudo. Entre os filhos e o trabalho, o companheiro de viagem e a casa, a obrigações sociais e os hobbies o tempo é curto e os ponteiros do relógio são inclementes, cruéis. Nunca terão compaixão do livro que quero ler e está pousado há meses na mesinha de cabeceira, nem do café que prometi a uma amiga há largas semanas. O tempo não tem compaixão dos passeios que prometi dar com os filhos nem das viagens que fiz questão de planear com o mais que tudo.

O tempo não tem compaixão do meu rosto que a cada dia que olho com mais atenção vejo mais uma ruga, pequenina é certo, mas que está lá, para me lembrar que ainda há tanto por fazer e tão pouco tempo para pôr tudo em prática. O tempo, esse ladrão que me roubou os miúdos pequenos e os seus sorrisos travessos e caracóis no cabelo.

O tempo….O tempo que não volta atrás. Mas ainda há sonhos. Ainda os tenho. Ainda haverá tempo? Quero acreditar que sim. Que no meio desta loucura, desta azáfama demente dos dias a correrem sem olhar para trás, ainda terei tempo de construir coisas, cumprir sonhos, fazer viagens, mimar os meus. Se vai ser fácil? Pois, com certeza que não. Desde que o tempo passa a habitar os nossos dias nada mais volta ao que era, nada mais volta a ser fácil. Mas na verdade, ao chegar a esta bela idade, o espelho diz-me que em breve entrarei nos “entas”, e não tivesse vivido metade do que vivi, a minha vida não seria a mesma, eu não seria a mesma, nada seria igual. Nem o passado, nem o presente., nem o futuro. E nem eu e nem os meus.

O tempo…o que é o tempo afinal? Nada. Apenas uma ideia. Uma teoria mal amanhada para nos obrigar a correr.

E então, enquanto vou escrevendo estas palavras, uma ideia vai ganhando forma na minha mente… E se eu, de repente, cometesse uma loucura e esquecesse o jantar, a roupa para lavar, a mesa descomposta, o pó pousado nos móveis e fosse ver o pôr-do-sol?

Não penso mais, já é certo. Decidida, vou fechar o computador e deixar uma mensagem na mesa da cozinha:

“Fui ali viver um bocadinho e volto já.”

 

 

Tema da semana: "Falta de tempo"

 

 

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