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Silêncio ensurdecedor

por magnolia, em 09.05.13

 

 

 

 

Quando abri a porta e entrei na casa depois de tanto tempo ausente vi o silêncio pendurado
nas paredes, por cima dos móveis e a atapetar o chão. Era um silêncio severo, grosseiro,
perturbador.

Entrei na sala, olhei a estante coberta de livros que já não me lembrava que tinha e o silêncio
também por lá estava.

Liguei a televisão que, provocadora, me lançou uma música frenética aos ouvidos. Mesmo
assim o silêncio não se foi embora.

Tentei derrotar o silêncio com a velha aparelhagem. Pus a tocar um disco de vinil que tantas
vezes ouvi mas a musica não estava lá, apenas o silêncio doloroso e desafiante.

Abri a janela e som das crianças a jogar à bola, a chamar uns pelos outros, a debitar
gargalhadas por causa de conversas que eu não podia imaginar tentou entrar por ela mas nem
assim o silêncio partiu de mim.

Nem os pássaros que chilreavam no ninho feito no beiral do prédio se faziam ouvir.

Senti-me doente. Senti que o silêncio tinha invadido o meu corpo, a minha mente e a minha
vida inteira desde que te foste embora.

Era doloroso ver as nossas coisas silenciosas, quietas, abstratas.

Partiste e deixaste-me no meio do silêncio profundo da tua ausência.

Não vais voltar, bem sei…

Só não sei como hei-de fazer para voltar a ouvir a vida à minha volta.

Percorri a casa, peguei numa moldura onde estavas tu e eu numa fotografia a preto e branco,
onde me abraçavas alegremente e quase pude ouvir a tua gargalhada poderosa no meu
ouvido. Prestei mais atenção a ver se era de verdade mas nada… apenas o silêncio incómodo
da casa vazia…

Anoiteceu. A casa na penumbra tornou-se pesada demais. O silêncio ensurdecedor estava a feri-me
demasiado e não aguentei. Saí pela porta deixando-a aberta e corri para a rua vazia…

E corri. E corri. Corri até perder o fôlego e deixar-me cair na calçada humedecida pelo orvalho
da noite.

Foi então que te vi.


tema da semana: silêncio

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servido às 23:00

Breve silêncio

por Natacha, em 08.05.13

E, de novo hoje...
o silêncio gritou mais alto,
E disse silêncios de poesias e sentires.
Exclamou pulsações,
Afirmou sensações...
E explodiu, em extâse ... sem ausências,
mas num silêncio de emoções.
Olhou também, sorriu e calou,
E assim, penetrante, ficou...
Adormeceu num suave sussurro
silencioso como o melhor dos beijos
e infinitamente mais doce
que todos os murmúrios...

Hoje não é o silêncio que me mata. 
Mata-me a tua ausência da minha frequência, a falta de sintonia como a maior expressão da solidão.
Tão única e tão só...

Tema da semana: Silêncio

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servido às 22:57

Podia dizer "olá"

por Closet, em 06.05.13

 

 

Podia dizer "olá". 
Ali sentado, à minha frente, de cabelo desgrenhado e o olhar perdido no mesmo vidro que eu. 
Sorri. Apenas para lhe devolver o sorriso que, reflectido no vidro opaco, embateu abruptamente no meu. Quente, era um sorriso estranhamente quente, que me arrepiou.
Voltámos ao vidro da janela, escuro, indiferentes aos grafites que o rasgavam de cor. Enquanto a noite corria veloz, lá fora, ambígua, incerta. Sem nós. Raspava os nossos rostos pálidos, inexpressivos, numa trepidação constante, quase indolor.
No reflexo espelhado, apenas olhares vazios, mudos, de quem vagueia sem procurar nada. Pelo menos, nada lá fora. A nossa busca era dolorosamente interior. Talvez por isso os olhares cruzaram-se agora de frente, demoradamente, partilhando a solidão fria do instante. Sem hesitação, cravaram-se um no outro, cúmplices de um silêncio dormente. Incolor. Os dele, brilhantes, ousados, perfuraram os meus. Carentes, Tristes. Percorreram sozinhos, peregrinos e destemidos, todo o rosto em seu redor. Uns lábios finos, comprimidos, escondidos numa barba por fazer.

Mas entre mim e o silêncio havia uma espécie de compromisso. Firme. Absoluto. Talvez por isso, abandonei violentamente os seus olhos audases e voltei ao vidro baço e sujo. Como se a minha vida corresse lá fora com a noite, e eu a procurasse na imensa escuridão. 

Num solavanco inesperado, os carris chiaram e a viagem terminava, invadindo o vidro com as luzes estridentes da estação .

Encadeada, estremeci. Ele sorria novamente através do vidro baço. Institivamente eu sorri também.

Podia ter dito "olá". As portas abriram-se de repente, pisei em silêncio o chão.


tema da semana: silêncio

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servido às 23:34

O bar sozinho 4/5

por magnolia, em 05.05.13

 

 

- Sim, Laura, este meu precioso livro está em branco! Quer dizer, na verdade só parece que está em branco…mas não está.

- Não entendo. Como assim parece que está em branco mas não está? Eu não vejo nada escrito…

A cara dela mostrava bem a confusão que lhe ia na cabeça.  

- Sim, as folhas estão em branco mas o livro não.

- Estou a ouvir-te.

E estava, atenta e ávida de saber que mistério era aquele. Levaram os dois o copo à boca e sorveram o liquido castanho e gelado e quando pousaram os copos, pousaram também o olhar um no outro. Estavam constrangidos apesar da dureza que queriam passar.

- Aqui está toda a minha vida, Laura. Toda.

- Explica-me tudo. Detesto não entender as coisas…tu sabes. Afinal. Há quantos anos me conheces?

- Muitos, Laura, muitos…

- Não estarás arrependido?

- Nadinha. E tu?

- Também não.

- Lembra-te que vou abrir a minha alma, Laura. Depois espero que me recompenses explicando-me porque vieste de tão longe trazer-me o livro.

- Posso dizer-te antes…

- Diz-me então…

Estavam ambos virados de costas para o balcão, o mar pela frente. Depois beberem outra vez e ao virarem-se de novo os seus olhares cruzaram-se e depois cada um seguiu o rumo do mar. Ficaram em silêncio uns minutos. Ela a pensar como dizer o que queria dizer e ele ansioso pela resposta.

- Tinha saudades tuas… Demasiadas. Queria ver-te. Nos últimos tempos senti muita vontade de te abraçar novamente…

Ela baixou os olhos para o chão cheio de areia da praia para ganhar coragem para continuar.

- Na verdade, hoje penso que nunca te esqueci. Nunca deixei de gostar de ti. Só tinha medo. Muito medo…

- Não te levo a mal…também não me portei muito bem…

Ele pegou-lhe na mão e ela não a tirou. Um arrepio percorreu-lhe a coluna de cima abaixo.

- Não digas nada. Ouve só.

- Não direi.

- Há pouco falei a brincar, mas agora falo a sério…Tive saudades tuas. Queria estar contigo. Rever-te o olhar, o sorriso… Saber o que sentiria ao ver-te de novo…ao sentir o teu cheiro.

Olharam-se e tal como tinha acontecido há muito, muito tempo atrás, algo faiscou entre eles. Uma centelha da paixão adormecida pareceu renascer.

Ela apertou-lhe a mão e ele devolveu-lhe esse gesto. Olharam-se de novo como se o tempo não os tivesse tido separados e o braço dele passou vagarosamente por cima dos ombros dela.

- Eu sei o que sinto ao ver-te de novo Laura…queres ouvir?

- Não. Não quero. Primeiro quero que me contes do teu misterioso livro em branco.

- Está bem…pode ser. Então é assim. O que tenho para te contar já vem de muitos, mesmo muitos anos atrás e posso dizer-te que mudou a minha vida toda…

 

(…)



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servido às 16:36

Uma musa diferente

por Natacha, em 01.05.13

 

 

Não lhe conheço rosto, nem desenho na retina do meu olhar o contorno do seu corpo, se o tem. Sinto-lhe, isso sim, a presença forte, intensa do que nos traz à consciência a verdadeira importância que existe no estarmos simplesmente vivos. 
Dela, ou dele, emana um aroma inebriante, misto de madeira e canela, com reminiscências de maçã. E sei que está lá sempre que eu preciso de me encontrar comigo, sempre que eu preciso de, de novo, encarrilar no rumo certo, aquele que me aproxima do  simples, do verdadeiro, do naturalmente natural, do ser para além do ter.
Não falo do banco, que permanece estático por debaixo da árvore e que acolhe quem passa e busca o alento de um descanso, nem falo do arbusto que ondula ao sabor da brisa  e que faz companhia ao banco. 
Não falo das milhares de pessoas que por ali passam sem perceber que existe tanto mais por detrás de um simples banco de madeira de costas voltadas para o mar.
Não lhe conheço rosto e no entanto sei que é belo, ou bela, porque também não lhe conheço o género. Não lhe conheço os contornos do corpo, ou se o tem, mas sei que enche com a sua energia todo o espaço. 
Não fala comigo, não me tece elogios ou procura seduzir-me com artes e manhas. Não quer nada em absoluto de mim. Convive comigo porque ao invés de lhe querer  roubar o lugar e o protagonismo, limito-me a querer usufruir dele, ou dela, com o intuito de me tornar uma pessoa cada vez melhor.
Não tem nome, porque é aquilo que nós quisermos que seja. Para mim pode ser o mar, e para ti pode ser uma batucada, para mim pode ser a Lua e para ti pode ser o Sol.
Não é concreto, porque está presente no que nós escolhermos para ser nosso incentivo, nossa fonte de alma. Não tem fim, também não tem começo. 


Inspira-me o que me cativa. Inspira-me tudo e todos os que me sabem ver por dentro e de dentro para fora. Diferente, não é ser musa, diferente é ser instigador de vontades e de buscas, ainda que incessantes, pelo que na verdade importa nesta vida. Diferente é despertar consciências. 
Diferente és tu, que estás presente na minha vida, que permitiste que me alimentasse de ti, da tua sabedoria, dos teus ensinamentos, e em troca, apenas me pediste que te fizesse sentir, e que te desse a paz. 
Musa, ou inspiração, são todos os pequenos momentos em que me emociono. Diferente é isto, a capacidade de nos emocionarmos...


[reposição]


tema semanal: cumplicidade

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servido às 23:10

mais um pouco

por Closet, em 29.04.13

 

 

A manhã acordou gelada por cima dos seus corpos esgotados, à medida que a luz rompia os olhos embargados pela despedida.

Ele ainda dorme sereno, enquanto ela permanece em silêncio a observa-lo. Percorre-lhe lentamente o braço macio até à mão. Entrelaça os dedos nos seus e aconchega-se a ele, mais um pouco. Respira o perfume madeirado rente ao seu pescoço e questiona se ele sente o calor do seu peito nas suas costas despidas. Fecha os olhos novamente, por mais uns segundos, e, no escuro, deixa-se invadir pelo sorriso meigo de voz aveludada que lhe sussurra «amor» baixinho. O corpo que balanceia num ritmo desengonçado, e os braços compridos que a seguram pela cintura enquanto ela fala sem parar. Conversam sobre tudo e sobre nada, entre a realidade e a fantasia, partilham os sonhos, os medos, as gargalhadas e as dúvidas. Era tão fácil ama-lo loucamente e tão difícil esquecê-lo por um segundo. Acorda sobressaltada e abraço-o sofregamente, mais um pouco. Como para ter a certeza que ainda o tinha consigo.

 

Em toda a sua minha vida precisou ama-lo. Desesperadamente. Como se não existisse mais ninguém, nem mais nada. Ama-lo violentamente, com o corpo inteiro, com a boca, com as mãos, com o olhar, com a imaginação. Vivê-lo para lá da solidão das horas vazias, da penumbra dos dias inúteis que passam rápido demais. Na busca incessante do espaço e do tempo perfeito, que os entrega um ao outro por momento escassos. Por mais uma noite finita. Para sempre? – Pergunta-lhe com a voz abafada no seu peito, fingindo esperar resposta. Ele não responde, as palavras inventadas estavam gastas, ela também as sabia de cor. 

 

A noite passara por eles também apressada. Dissipada no sabor doce que lhes resta ainda na boca, no calor que emana a mistura da sua pele. A noite passara, certamente, sem qualquer um deles notar. Levou com ela a cumplicidade de quem se pertence, numa espera antiga, adiada toda uma vida. A manhã acordou-os, cansada, de tanto esperar.

Mais um pouco - pede-lhe bruscamente, impedindo-o de levantar. Os olhos despedem-se em silêncio, demoradamente. Devia ser noite sempre, neste olhar.

 

tema da semana: cumplicidades  

 

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servido às 23:27



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